EAV Parque Lage NEWS
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A própria Escola de Artes Visuais, apesar de todo o investimento continuou a enfrentar os mesmos problemas estruturais e financeiros que sempre caracterizam a sua existência, sendo obrigada, inclusive, a produzir eventos e promoções que garantissem seu funcionamento regular. A investida mercadológica procurou rotular a “geração 80” como algo inteiramente comprometido com a nova figuração italiana e o neoexpressionismo alemão. Se, por um lado, certas apropriações nesse sentido são corretas, é preciso frisar que elas foram bastante acentuadas a fim de sensibilizar o comprador tupiniquim, como sempre necessitado de referenciais externos para justificar qualquer investimento.

Marcus Lontra (1954, Rio de Janeiro)

Formado em Comunicação Social pela PUC-Rio, é crítico de arte e curador independente.

Em 1975 passa ser o editor da revista Módulo, permanecendo até 1983, quando assume a diretoria da Escola de Artes Visuais do Parque Lage até 1987. Crítico de arte dos periódicos O Globo (1983–1984), Tribuna da Imprensa (198619 87) e Isto É (1986–1987). Entre 1987 e 1989 foi assessor do Ministério da Cultura. Dirigiu os Museus de Arte Moderna, de Brasília (1989), do Rio de Janeiro (1990–1997) e de Recife (1998–2001). Foi secretário de Cultura de Nova Iguaçu (RJ), no governo de Lindberg Farias (2006/2008). Foi curador das mostras: “Como vai você, geração 80?” (1984, junto com Sandra Magger e Paulo Roberto Leal); “Infância perversa”, no MAM- RJ (1995);“Onde está você geração 80?”, no CCBB, em 2004. Desde 1998 é diretor da Lontra Produções Culturais.

O esfacelamento do poder ditatorial foi gradativo e nos anos 80 a mudança não foi um processo conquistado pela população, por mais que existissem manifestações populares como as chamadas “Diretas já”. O fim da ditadura foi mais um processo de desgaste político do sistema do que uma conquista nacional. A transição da ditadura militar para a democracia no Brasil, segundo Elio Gaspari (Nápoles, Itália, 1944), foi “desmontando aos poucos, com tamanha precisão que até hoje não se pode dizer quando acabou”.[1]

Em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves (1910-1985) é eleito presidente por voto indireto (Colégio Eleitoral) e falece às vésperas de tomar posse, sendo sucedido pelo seu vice, José Sarney (1930). É de sua gestão a criação do Ministério da Cultura (até então uma Secretaria do Ministério da Educação), em março de 1985, tendo como primeiro ministro José Aparecido de Oliveira (1929-2007), que logo foi substituído por Aloísio Pimenta (1923). Foi promulgada nesse período a Lei Sarney (lei nº 7.505, de 2 de julho de 1986, lei de incentivo fiscal à produção cultural).

Durante o governo Sarney, numa tentativa de diminuir os juros e valorizar a moeda, cria-se o Plano Cruzado (lançado em 28 de fevereiro de 1986) em substituição ao Cruzeiro, moeda vigente no país desde os anos 70.

Outro ponto relevante para contextualizar historicamente o período é a candidatura de Leonel Brizola (1922-2004): primeiro governador eleito diretamente no Estado do Rio de Janeiro, em 1983. À frente da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro estava o antropólogo Darcy Ribeiro (1922 -1997), que também exercia o cargo de vice-governador.

Nesse ano de 1983, Adriano de Aquino (1946), coordenador da Fundação das Artes do Rio de Janeiro (Funarj), convida Marcus Lontra (1954) para assumir a direção da Escola de Artes Visuais, que desde a saída de Rubem Breitman (1932-2001), em maio desse ano, vinha sendo dirigida de forma interina por Nelson Augusto (1942).

[1] GASPARI, Elio; HOLANDA, Heloisa Buarque de; VENTURA, Zuenir. 70/80 cultura em trânsito. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000, p.12.

O apaziguamento político mundial com o fim das guerras e ditaduras na América Latina influenciou, de forma significativa a produção artística nesse momento, gerando movimentos como a transvanguarda na Itália, o neoexpressionismo na Alemanha, e o retorno da pintura no Brasil.

No Brasil, a energia propagada por essa geração é fruto de uma reconquista da liberdade de expressão. Diferentemente da geração anterior, a década de 1980 é estigmatizada por ser uma geração “alienada”. A pintura nesse momento evidencia uma liberdade do espírito, ou seja, a necessidade da criação pela criação, sem a necessidade de estar vinculado a dogmas ou objetivos declarados.

Outra mudança significativa é a inserção imediata dos jovens artistas no recente mercado de arte (galerias e feiras) que começa a ganhar corpo no Brasil.

É importante salientar que simultaneamente à efervescência dos jovens pintores, havia uma produção intensa em outros suportes como performances, grafites, vídeos. Nos quais se destacaram artistas como Ricardo Basbaum (1961), Alex Hamburger (1950), Ivald Granato (1949), Caíto (1952), Guto Lacaz (1948), Ernesto Neto (1964), Rosângela Rennó (1962), Márcia X (1959), Nelson Felix (1954), entre outros.

No Rio de Janeiro três grandes exposições foram fundamentais para apresentar a “nova” pintura brasileira, são elas:

  • “Entre a mancha e a figura” (1982), organizada por Frederico Morais, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Um recorte sobre a pintura no Brasil, reunindo diversos artistas de várias faixas etárias e interesses.
  • “À flor da pele – pintura e prazer” (1983), organizada por Marcus Lontra, no Centro Empresarial do Rio de Janeiro.
  • “Pintura, pintura” (novembro de 1983) com curadoria de Márcio Doctors, na Fundação Casa de Rui Barbosa.

O Espaço Cultural Sérgio Porto, inaugurado em dezembro de 1983, ocupando o galpão na rua Humaitá, com administração da RioArte, promove em sua abertura o evento “Três mil metros cúbicos de instalações de vanguarda”, uma referência ao tamanho do espaço. Participam os artistas: Antonio Dias, Waltercio Caldas, Cildo Meireles, José Resende, Tunga, Marcelo Nitsche, Artur Barrio e Humberto Costa Barros.

Em dezembro de 1985, o Paço Imperial torna-se Centro Cultural depois de três anos de obras de restauro.

Em 1987, a galeria do Centro Empresarial Rio realiza a mostra “Novos novos”, que reuniu jovens artistas (Cristina Pape, Cristina Canale, Lula Vanderlei e Martha Araújo), com curadoria Ascânio MMM e Ronaldo do Rego Macedo e apresentação de Márcio Doctors.

Nesse mesmo ano aconteceu um evento em comemoração ao centenário do romance A moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, passado na ilha de Paquetá. A exposição recebeu o mesmo título do romance e teve Márcio Doctors como um de seus organizadores. O evento procurou refletir, de forma irônica, o processo criativo da pintura a partir do movimento impressionista tendo como referência a pintura ao ar livre de Manet. Integraram a exposição: Ricardo Basbaum, Beatriz Milhazes, Jorge Barrão, João Magalhães, Hilton Berredo entre outros.

A direção de Marcus Lontra teve papel importante no posicionamento da Escola de Artes Visuais no circuito expositivo da cidade. Sob sua curadoria foram realizadas as seguintes exposições na EAV: “Como vai você geração 80?” (mostra emblemática tanto na história da arte brasileira como para a história da Escola de Artes Visuais do Parque Lage pela projeção de novos artistas); “Pau, pedra, fibra e metal” (levantamento da produção da gravura); “Rio narciso” (relação dos artistas com a cidade do Rio de Janeiro), “Velha mania”, entre outras. Foi promovido também o projeto “Rio de cor – segmento muro”, no qual setenta artistas realizaram a pintura no muro externo do Parque Lage. Outro ponto relevante da gestão é o funcionamento da Associação Brasileira de Artistas Plásticos na Escola de Artes Visuais.

Foi fundamental para essa gestão a presença do assessor de imprensa no quadro de funcionários, assegurando a visibilidade da Escola na mídia.

É também fruto desse período a criação da Associação de Amigos da Escola de Artes Visuais (Ameav) para fins culturais com o objetivo de aprimoramento e desenvolvimento das atividades da Escola. Entre as ações, cabe destacar:

  • Promover, através de doações, a criação do acervo da EAV
  • Promover exposições temporárias
  • Exibir produções audiovisuais e cinematográficas
  • Promover cursos curriculares e extracurriculares
  • Angariar donativos para o objetivo social
  • Estabelecer convênios com entidades que possam contribuir para os fins da Associação

Sua diretoria tinha a seguinte composição: Carlos Scliar – diretor-presidente; Marcus Lontra – vice-diretor; Maria Luiza Saboia Saddi – diretora secretária e Douglas Guimarães Cabreira – diretor-tesoureiro; Gilberto Chateaubriand, Paulo Estellita Herkenhoff Filho e Valério Rodrigues – conselho fiscal.

Ao assumir a direção, em outubro de 1983, Marcus Lontra manteve uma estrutura de ensino semelhante à idealizada por Rubem Breitman e Nelson Augusto, cujo ingresso se dividia em dois núcleos: Básico – destinado a alunos iniciantes, e Específicos – destinados a alunos mais experientes.

Eram disciplinas dos núcleos:

  • Básico (Desenho, Cor e Questões da Arte).
  • Específicos (Desenho, Pintura, Gravura, Arquitetura, Fotografia, Escultura e Artes do Fogo


Foram professores nessa gestão:

Adauto Lúcio Cardoso, Alberto Kaplan, Anna Carolina, Antônio Grosso, Astrea El-Jaick, Carlos Araújo, Celeida Tostes, Charles Watson, Christiano Ariel Teixeira, Cláudio Kuperman, Daniel Senise, Edgar Fonseca, Evany Cardoso, Fernando Moura, Frederico Morais, Geraldo Salvador, Isabella Sá Pereira, Jaime Sampaio, Jair Freire, João Bosco Renaud, John Nicholson, José Arthur Salleiro Lemos, José Lima, Katie van Scherpenberg, Lauro Cavalcanti, Lícia Lacerda, Lúcio Flávio, Luiz Ernesto, Luiz Antônio Norões, Luiz Aquila, Manfredo de Souzanetto, Manoel Fernandes, Márcio Doctors, Mário Azevedo, Milton Machado, Nelly Gutmacher, Nelson Augusto, Orlando Mollica, Roberto Leal, Ronaldo do Rego Macedo, Rosa Magalhães, Sílvia Muylaert, Solange Oliveira, Valério Rodrigues, Zanine Caldas.